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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Caravanas de Lula e de Getúlio Vargas: semelhanças e diferenças 67 anos depois

Os dois ex-presidentes percorreram o país em caravanas que tentavam cativar eleitor
BBC BRASIL

"O senhor Getúlio Vargas partiu hoje, às primeiras horas da manhã, de avião, para o norte do país. O presidente de honra do PTB visitará as capitais dos estados nortistas, nas quais participará de comícios de propaganda de sua candidatura à Presidência da República". Foi assim que o jornal Folha da Manhã, antigo nome da Folha de S.Paulo, anunciou a caravana do então senador Getúlio Vargas pelo Norte do Brasil no dia 20 de agosto de 1950.

Há duas semanas, mais de 67 anos depois da caminhada de Getúlio, outro ex-presidente, o petista Luís Inácio Lula da Silva, iniciou peregrinação parecida no Nordeste. O objetivo do Lula de agora, é o mesmo do Getúlio de antes: retornar ao cargo de presidente do país.

Em julho, o ex-presidente foi condenado a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no julgamento em que era acusado de receber um apartamento tríplex no Guarujá (SP), mais a reforma do mesmo imóvel, em troca da promoção de interesses da empreiteira OAS junto à Petrobras. Lula alega inocência e diz que é perseguido pelo juiz federal Sergio Moro.

O caso do tríplex ainda será julgado em segunda instância. Caso seja condenado, Lula ficará inelegível e pode ser preso.

A aliados, o petista chegou a mencionar o exemplo de Getúlio. Lula afirmou ver semelhanças entre as suas condições e as do populista que, depois de uma temporada na presidência, tentava voltar à cadeira.

Assim como Lula, Getúlio fez sua própria caravana Brasil afora para tentar conquistar a simpatia dos eleitores. Essa empreitada era desacreditada por parcela da sociedade, especialmente por uma parte da elite econômica e da mídia, que não viam com bons olhos sua campanha - mais uma semelhança que Lula vê entre ambos. "Diferente do Getúlio, porém, Lula diz que não tem chance de se matar depois de ganhar", diz, entre risos, um de seus correligionários.

Em agosto de 1950, cinco anos depois do fim do período conhecido como Estado Novo, Getúlio enfrentava resistência da maior parte da imprensa e dos grandes empresários do país. Ele entrou na Presidência em 1930. Sete anos depois, instaurou o Estado Novo - ditadura que cassou partidos políticos, fechou o Congresso, perseguiu e torturou opositores.

Por outro lado, o ex-ditador era bastante popular, pois implantou medidas que melhoraram a vida dos trabalhadores, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943.

"Getúlio era um ditador popular, principalmente por políticas que valorizavam as condições dos trabalhadores, e pela instalação de um Estado nacional, com uma indústria brasileira", explica o historiador Sérgio Lamarão, ex-pesquisador do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Nos primeiros meses de 1950, não se tinha certeza se Getúlio sairia candidato a presidente. Apesar de ser senador, ele passava a maior parte do tempo em São Borja (RS), sua cidade natal. Ele foi convencido a concorrer por membros do PTB, partido trabalhista do qual ele era presidente de honra. De modo parecido, há quatro meses Lula tampouco sabia se seria candidato. Foi alvo de intensa pressão de colegas do PT para que se convencesse a se lançar.

Segundo Lamarão, a grande imprensa era "antigetulista" e apoiava Eduardo Gomes, candidato da UDN (União Democrática Nacional). "A UDN era uma espécie de PSDB daquela época, um partido das classes médias urbanas", explica o historiador.

Sem apoio da mídia e do empresariado, Getúlio citou sua relação com a classe trabalhadora em discurso em São Luís no dia 22 de agosto de 1950: "Encontrei, é certo, o apoio do proletariado, não porque pretendesse fomentar a luta de classes, mas porque minhas ideias se filiavam ao movimento universal de humanização do trabalho e de consagração da igualdade de direitos e de oportunidade para todos na luta pela vida".

Semelhanças e diferenças

Lamarão vê semelhanças entre o período da segunda eleição de Getúlio e a situação atual de Lula. "Eles são lideranças populares, com apelo inegável, ambos com oposição da grande mídia, ambos polêmicos, ambos com telhado de vidro. Os dois cometeram pecados políticos, com indefinições, erros. Os dois fizeram muita coisa para garantir a tal governabilidade", diz.

Já o sociólogo Luiz Werneck Viana vê diferenças entre as duas figuras. "Lula tenta mimetizar Getúlio, porque essa é uma narrativa que tem eficácia, mas ela não se comprova pelos fatos. Getúlio queria organizar a sociedade por cima, pelo corporativismo, pela criação de um estado nacional forte, industrializado", explica. "Lula é justamente o contrário, quer organizar por baixo. Ele encarnou a questão social, dos excluídos, o que não era um discurso de Getúlio".

Embora o corporativismo e o discurso inclusivo sejam diferentes, Vargas e Lula tomaram decisões parecidas para viabilizar suas gestões e garantir governbilidade. Para Thiago Mourelle, doutor em história social pela Universidade Federal Fluminense e supervisor de pesquisa do Arquivo Nacional, os dois estão próximos pois buscavam governos de coalizão, com os mais diversos apoiadores. "Vargas chegou a oferecer ministérios para a UDN, adversária histórica, e compôs diversas vezes com adversários em nome da governabilidade", diz.

José Álvaro Moisés, professor de ciências políticas da USP, vê outra semelhança entre os líderes. Essa, no entanto, é negativa para o petista. "O ex-presidente Lula, quando faz essa comparação, está admitindo inconscientemente que, como Getúlio, ele é um autoritário. Getúlio foi um ditador. A questão autoritária de Lula é a corrupção. Corrupção tem uma faceta autoritária, pois ela retira recurso da comunidade indevidamente, de forma obscura. Lula usou da corrupção para que o partido se mantivesse no poder", diz.

"No nome de Vargas não havia manchas, estava viva a ideia de 'pai dos pobres' e criador da CLT e a maior acusação que ele sofria era a pecha de ditador", explica Mourelle. "Lula, estrategicamente, sempre posiciona seu nome na mesma prateleira da que está Vargas, afinal, Vargas foi muito popular, talvez tenha sido o presidente mais marcante do Brasil, e ficou marcado pelas leis trabalhistas. Portanto, é um espelho desejado".

Mourelle cita similaridades na trajetória política do petista e do populista: "Ambos são figuras políticas que ficam acima dos partidos, são trabalhistas identificados com o reformismo e com a cooperação entre as classes. Ambos são criticados tanto pela esquerda radical - por causa de seus projetos reformistas - quanto pela direita radical - que os acusa de 'comunistas'".

As caravanas

Para vencer as eleições, Getúlio percorreu todos os 20 Estados que existiam no Brasil na época. Ele pronunciou 80 discursos durante a caravana, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas.

"A estratégia de Vargas foi abordar em cada cidade o tema que falava mais de perto à plateia local. Assim, se na Amazônia os pontos enfatizados foram nacionalismo e borracha, no Paraná, dedicou-se sobretudo ao café e no Mato Grosso, à pecuária. O nacionalismo foi novamente a palavra-chave na Bahia, ao lado de petróleo, cacau e aproveitamento do rio São Francisco", diz o texto.

Já Lula concentrou seu roteiro em Estados do Nordeste: a caravana começou no dia 17 e termina nesta terça-feira, no Maranhão. Ele visitou Pernambuco, onde nasceu, e foi recebido pelo senador Renan Calheiros (PMDB) em Alagoas.

Em seus discursos, o petista criticou a operação Lava-Jato e o governo do presidente Michel Temer (PMDB). E deu ênfase aos feitos de sua gestão: como o programa redistributivo Bolsa Família e as medidas de impulsionamento da economia nordestina.

"Quando criei o Bolsa Família, sabia que não era pra resolver todos problemas, mas sabia que era suficiente para uma mãe levar pão pra casa. Os mais pobres precisavam de trabalho, crédito, respeito. E começaram a comprar peito de frango no lugar do pescoço, a andar de avião", disse Lula.

Eventos como esse fazem parte da história de Lula. Nos anos 1990, ele visitou mais de 300 cidades do país nas chamadas "Caravanas da Cidadania". Para Cláudio Gonçalves Couto, professor de ciência política da FGV, é "difícil dizer" se a caravana de Lula fará tanto efeito quanto as anteriores.

"Ela não tem o mesmo impacto direto das caravanas anteriores. O impacto direto é o corpo a corpo, as pessoas que ele atinge pessoalmente", diz. "Outro impacto é indireto, ou seja, a capacidade que esses eventos têm de repercutir, de virar notícia, de chegar às redes sociais. Isso me parece que Lula está conseguindo atingir, ele tem mostrado certa força na região, principalmente nesse momento de desgaste do governo atual (de Michel Temer)", diz Couto.

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